Maio 23, 2026

O abandono da reportagem e o sedentarismo no jornalismo português

Investigadores da Universidade do Minho e do Instituto Politécnico de Viseu questionaram mais de uma centena de jornalistas sobre os seus hábitos de reportagem e as conclusões são preocupantes. Menos de um quarto destes admite fazer reportagens com regularidade. E mais de 70 por cento admite privilegiar o contacto telefónico com as fontes.

O estudo de Miguel Midões e Joana Martins, publicado em março, confirma, com dados sólidos, aquilo que as redações portuguesas sentem há anos: a reportagem — e, com ela, o jornalismo de proximidade — está a desaparecer das rotinas profissionais. Não por falta de convicção dos jornalistas, mas por falta de condições.

A investigação, publicada na Journalism and Media MDPI com o título original “Abandoning Reportage and Proximity in Journalism: There Is No Time, No Money, and No People to Leave the Newsroom More Often” – “O abandono da reportagem e da proximidade no jornalismo: não há tempo, dinheiro nem pessoas para sair mais vezes da redação” é baseada em respostas de 111 profissionais e mostra um paradoxo preocupante:

quase todos reconhecem a importância da proximidade e da reportagem, mas a esmagadora maioria produz sobretudo notícias rápidas, dependentes da agenda institucional e feitas a partir da redação. A proximidade, enquanto valor jornalístico transversal, fica reduzida a um ideal teórico.

Principais conclusões:

  • A reportagem é residual: apenas 24% dos jornalistas a realizam com regularidade; 20% não saíram da redação uma única vez no mês anterior ao inquérito.
  • A agenda domina: mais de metade considera o seu órgão de comunicação “muito” ou “totalmente” dependente da agenda política e institucional.
  • O contacto direto com fontes é exceção: 72% recorrem sobretudo ao telefone; apenas 8% privilegiam o contacto presencial.
  • Os obstáculos são estruturais: falta de tempo, falta de recursos humanos, falta de meios financeiros e decisões editoriais que privilegiam volume e rapidez.
  • A proximidade é vista como missão do jornalismo, mas os jornalistas locais sentem-se “guardiões” desse papel, enquanto muitos profissionais dos media nacionais não reconhecem praticar proximidade.
  • A prática não acompanha a teoria: apesar de 98% considerarem a reportagem essencial para profundidade, credibilidade e ligação às comunidades, ela é sistematicamente sacrificada.

 

Principais preocupações:

O trabalho confirma uma tendência estrutural: o jornalismo português tornou-se mais sedentário, mais dependente de fontes oficiais e menos presente no terreno. A lógica industrial da produção noticiosa — rapidez, simplificação, desk journalism — está a corroer a capacidade do jornalismo de cumprir a sua função democrática de escrutínio e ligação às comunidades.

A ausência de reportagem empobrece a narrativa, reduz a diversidade de vozes e afasta os cidadãos dos media, sobretudo em territórios já marcados por desertificação informativa.

O que podemos fazer para contrariar?

O estudo reforça a urgência de medidas estruturais como:

  • Financiamento estável para o jornalismo local e regional, onde a proximidade é mais necessária e mais difícil de praticar.
  • Reforço das redações, combatendo a precariedade e a redução de equipas que impede o trabalho de campo.
  • Modelos de apoio que valorizem géneros exigentes, como a reportagem, e não apenas métricas de volume ou tráfego.
  • Políticas que incentivem a diversidade de fontes e combatam a dependência da agenda institucional.
  • Reconhecimento público de que a proximidade não é um luxo, mas um pilar democrático.

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