Abril 12, 2026
Carta Aberta À Presidente da Câmara Municipal de Coimbra
Não lhe retiramos a confiança porque não nos compete. Apenas nos compete colocar-lhe todas as questões, por dever e por direito.
Professora Doutora Ana Abrunhosa,
Em recente sessão da Câmara de Coimbra, julgou incapaz e dirigido por uma agenda política própria o trabalho do jornalista João Gaspar, ao serviço da Agência Lusa, declarando-lhe “a falta de confiança”.
Aconteceu em ato e em funções públicos, de modo a que pudesse ser divulgado, sem que o jornalista, presente na sessão, pudesse defender-se das acusações, tendo mesmo sido apresentados factos (contacto no dia anterior do jornalista com elementos do gabinete da Presidência) e omitindo outros (pedido escrito de esclarecimento nove dias antes);
A declaração foi pautada por expressões que só podem ser entendidas num quadro de cansaço e eventual confusão sobre as informações de sustentação da crítica.
A direção da ProPress – Associação Portuguesa de Jornalistas, com sede em Coimbra, entende dever lembrar que a legitimidade do voto não legaliza nem legitima tudo, nem permite atitudes de posso, mando e quero.
A missão dos jornalistas tem regras, deveres e direitos e ética próprios, sendo a independência uma das mais essenciais condições ao exercício profissional, sem tutela de poderes públicos, incluindo das autarquias e dos seus titulares.
Assiste, no entanto, o direito da crítica, o da retificação e o da queixa formal nas entidades de tutela e nos tribunais. Não o da crucificação em praça pública.
Somos os primeiros interessados em escrutinar o exercício da profissão, sobretudo de quem não respeita as regras da profissão. Isso não tem a ver com faltas de respeito pela função e condenações em praça pública, omitindo factos e julgando sem ouvir. Até porque há instrumentos próprios para esse escrutínio.
De resto, é essa possibilidade de escrutínio que diferencia o jornalismo de outras coisas que se querem fazer passar por jornalismo.
Ora, declarações e ações deste tipo, intimidando, limitando o acesso, ultrapassando determinações legais, de restrição da liberdade e independência dos jornalistas, não podem ser aceitáveis.
O que está em causa, neste e em pelo menos outro episódio público de uso publico de linguagem de abuso de autoridade com jornalistas, tem resposta na Constituição e na Democracia.
Perante tudo isto, temos o dever de comunicar que, ao contrário do que pronunciou, os jornalistas não lhe retiram a confiança.
Simplesmente porque esse é um predicado dos seus pares políticos, incluindo os que apoiaram a sua eleição, dos seus eleitores e dos munícipes de Coimbra.
Não lhe retiramos a confiança porque não nos compete. Apenas nos compete colocar-lhe todas as questões, por dever e por direito.
Sem aceitar impedimentos e pronúncias públicas sobre este ou aquele jornalista. E é isso que continuaremos a fazer.
Esperando de V.ª Exc.ª a pronúncia necessária a sanar o incidente,
A direção da ProPress – Associação Portuguesa de Jornalistas
Coimbra, 12 de Abril de 2026
Partilhar artigo: